Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

NÃO, ELE NÃO ESTÁ MAIS AQUI

Comendador, o senhor precisa acreditar que ela está grávida sim, prenha sim! E o filho é do teu filho, é neto do senhor! Isso mesmo as faltas de cinco dentes gritavam cuspindo uns tantos do caldo de couve no tapete. É neto do senhor!! Num orgulho como prum messias, pruma desforra. E ria, riiiiiia que e caía no chão, e a amiga criada, a Vera Aline, a ajudava. Gordíssima, Vera Aline. A saliva de couve no braço do sofá. O comendador devia saber que o filho ia lhe sair, devia ter mandado pra fora do país, pra longe dessas reminiscências dos homens da família, desse preferirem descaradamente aquelas negrinhas que despencavam de cima das ondas do mar em dias churrascamente quentes.


O LIMÃO EXPRESSO MUDOU-SE
ele deixou bilhete! ele deixou recado!

guichê no seguinte link, lavradas devidamente as escrituras em cinco vias.






VÁ AQUI Ó!


Row! There's only seven more miles to go...
We'll reach the Isle of Her

Fevrale dostat chernil i plakat
Pisat O Fevrale navsnryd
Poka grohochushaya slyakot
Vesnoyu charnoyu gorit


Fevereiro, pega sua pena e cai em prantos.
Escreve poemas sobre fevereiro nos soluços e na tinta
Enquanto o trovão vai queimando ao fundo,
está queimando no negro da primavera



Hoje eu vivo sofrendo e sem alegria
Não tive coragem bastante pra me decidir
Aquela menina em sua cadeira de rodas
Tudo eu daria pra ver novamente sorrir
Sentada na porta
Em sua cadeira de rodas ficava
Seus olhos tão lindo sem ter alegria
Tão triste chorava

llorando
llorando
por tu amor
llorando
llorando


Y así pasan los días
Y yo, desesperando
Y tú, tú contestando
Quizás, quizás, quizás

Mas o doutor nem examina
Chamando o pai do lado
Lhe diz logo em surdina

Que o mal é da idade
E que pra tal menina
Não há um só remédio
Em toda medicina

(!!!)

The priest in the booth had a photographic memory
For all he had heard
He took all of my sins and he wrote a pocket novel called
"The State I Am In"
So I gave myself to God
There was a pregnant pause before he said ok

Now I spend my day turning tables round In Marks & Spencer's
They don't seem to mind




here, baby, come on
http://verbeatblogs.org/limaoexpresso/

Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Coincidência noturna anterior

Coincidência noturna anterior
parece difícil transformar em texto e realmente é. intimidades elementares só pedem silêncio pra paralisias convulsas e, desse jeito, não se sabe direito como me tornei diversa, como foi que quis te procurar com as mãos e vocalizar sentidos que nunca expressei. são todas imagens que, de tão aproximadas, são muito turvas: te procurar com as mãos, com os dedos e as unhas num movimento tão irreconhecível que é coisa de dar passos pra trás.

ineficiente.

se eu escrevesse a palavra, escreveria num espelho pra ter coragem de olhar (pra ele) em dizeres, de dizer que foi um salto do desejo, suprimir o que até hoje me pareceu proibitivo. saltando pelas sacadas, prestando
uma atenção suicida, aturdi mil beijos pelo seu pescoço e desenhei quadris perfeitos pra encaixe, mas não menti: quis estar infugível contra paredes.
a impressão que se tinha dali era que o querer estava vindo e agora era seu. era eu que te acordava, que achava hora pra parar os seus sonhos, que te procurava com as mãos, que te engolia dos seus sonos, que fazia cercos de língua e de realidade como se fossem cafeína.
e o que mais havia de ser? eu bocejava e sentia os seus dedos em mim. eu reclamava mais cinco minutos e só o que tinha era o preenchimento de todos os vazios universais pelos teus dedos em mim, pelos meus dedos em mim, pela vontade de me esconder, pelo meu excesso de pudores. parece tanto estranho dizer mas, digo, é urgente que se saiba que você circunscreveu meus seios e que você me ladeou e que houve essa posse e que fui pelos cabelos puxada. violentamente estive devota.

simplesmente quis devassar, singelamente forçada, frondosamente aberta. eu quis joelhos, quis ponta dos pés, quis beber e transformar em texto parece fácil, se você soubesse das exigências que... podia mesmo ser toda sonolências e se eu dormir e se você me morde, se eu te chupo; são percepções acetinadas do não comparecimento. apareço esmagada entre os dentes. li teu cartão pela vigésima vez. li teu livro agora e foi pela insistência da sua demora que me toquei gostoso.

Domingo, 5 de Outubro de 2008

Descobrindo o auto-gonzo

Por que se segurando?

porque se não saem textos não-amadurecidos demais,verdes-limão demais e cheios desses delírios demais. não consigo mais não usar um porra: se o porra e o caralho forem extintos, vou ter de vender laranjas na feira

Descobrindo o auto-gonzo
estou radicalmente poluída por uma série de pessoas que se juntaram nas ultimas semanas: sarah silverman, dahmer, hunter thompson y pereio.


estou sozinha aqui, sábado a noite, ninguém põe as caras, que resta? me recuso a me masturbar. me recuso a escrever.
minha vida social foi enterrada por um namorado violento.


é que minha boca está nos dedos
e que meu corpo inteiro, nas mãos
a minha alma só sabe se escrever, não fala, não mexe
não conversa com as pessoas na rua, não dá bom dia
minha alma é tão gonzo que saiu fora de mim porque sou careta

e aí é que explico: por isso bebo
é quando meu corpo vai descansar e a minha alma pode enfim ir. um saco esse negócio de morar em dedo. quem mora em dedo é unha.

Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

O meu irmão retardado


visão do paraíso
a primeira vez que vi meu filho eu não vi meu filho, eu não vi nada. na primeira vez eu vi e era ele com uma cabeça quase do tamanho do corpo e os tubos que drenavam a água. acho que não gritei porque nunca grito. mas era lá eu, a primeira vez e era meu filho. que mãe animada! ele não tava morto. eu nunca mais tinha acordado.

O meu irmão retardado
Eu tinha tudo para ser infeliz e aí eu sou infeliz uma vez de cada vez, mais só. Tão só que nem em terceira pessoa iria rir e não só por estar vazio de gente: só pelo excesso dos mortos. Lembro que já fui pequena um dia e que dançava, que queria dançar num balé, não dá pra saber agora, mas dançava e dizia que mãe, eu quero mesmo é um dia dançar todos os dias. Naqueles meses tínhamos um sofá vermelho que não dava pra deitar no calor porque virava uma piscina de suor. Ela dizia que, filha, dançar é bonito, mas você não vai dançar. Eu achava muito engraçado esse desentendimento, eu achava muito engraçado que ninguém entendesse que eu ia dançar e então os anos se passaram e as minhas juntas foram ganhando ângulos cada vez menores até que não dançassem mais.
Queria que o Bruno entendesse, quando come um pão barrado de nada que, se eu como Qualy, isso não me deixa mais acesa, isso não me deixa mais esperta, nem mais tranquila. O Bruno achou que não devíamos nunca estar. O Bruno acha que não, nada deve dançar muito, que são planos engraçados, sonhos muito engraçados, lindos, que a gente é bem feliz, muito, muito feliz só quando as juntas atrofiam e você está obrigado a desistir de dançar, de beber e de trepar. Afinal ele me deu um beijo porque o obriguei. Afinal ele iria embora e eu não o veria mais e me encostaria a boca paternalmente, quase maritalmente, dum modo que nunca mais esqueci. Digo do Bruno porque ele me pensa quem eu não sou: alguém que lhe é diferente, e não sou. Digo, sim: danço com as juntas atrofiadas porque juntos e atrofiados ficarão todos os meus enredos.

Minha casa é infinita de absolutos vazios, e de pobreza e de jornais pulp reality fluminenses. Esses de trem, flores cinza-pedaços-de-outros-papéis-cinzas fluminenses. E a minha casa tem mais arte que a privada do Duchamps e a minha casa tem privadas em muitos cômodos e tem uma tampa de privada em baixo do armário da cozinha, e tem uma área de serviço e tem uma escova de dentes muito velha na fruteira depois que alguém pintou os cabelos com ela. Penso que não é por falta de quem bem me queira, porque não é, porque tenho: eu tinha tudo para ser infeliz e sou infeliz por uma vez de cada vez, cada vez que aqui mais cercada da dor dos outros, da mais só. E a casa cada vez mais suja com um saco de lixo guardado não sei porque, e outros, e um fogão novinho, e um microondas novinho, e uma churrasqueira novinha em que nunca faremos churrascos dum lixo novinho que produzimos tentando não comer as peles dos frangos.
Aqui é muito sujo, a vizinha neopentencostal tem uma voz muito bonita mas, se não se cuidar, vai perdê-la, mas Deus deu o dom e vai cuidar. Deus deu o dom e vai cuidar. Deus me deu o dom de escrever porque queria me cuidar. Aqueles hinos evangélicos enchendo o saco e então eu atinei que iria escrever com o desespero de quem toma chá na Colombo sem nem um real no bolso, com o desespero de quem tem uma privada usada na varanda, com o desespero dum cachorro atropelado correndo no asfalto preto e vazio de noite. Eu escrevo como quem achasse que dá pra ouvir música, como quem pudesse esquecer as mortes que as dores dos outros causaram nos outros, como se o guarda-chuvas do Dahmer pudesse me salvar, como se eu pudesse, entrevada, dançar.

Meu irmão retardado jogou fora aquela minha cadelinha, o meu irmão retardado jogou fora a placenta da mamãe, o meu irmão retardado jogou fora o meu contrato de trabalho, o meu irmão retardado jogou fora uns beijos sem língua que me deu, o meu irmão retardado , esse, jogou fora o fio que ligava o som.

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Medo e delírio em Abolição: bad trip

Ela é uma caga regra! E elas deram uma lambida na beira do copo de sal do copo de whiskey. E elas subiram em cima do copo de whiskey e elas são daquelas meninas coelhinhas e elas põem as mãos no revólver e aquilo me dá um sono e eu mudo de canal e eu penso no Hunter Thompson e nos copy desks. O Hunter Thompson. O Hunter Thompson sai de casa pra fazer jornalismo afudê, o Hunter Thompson, ele me explica as coisas e ele fala as coisas rápido e eu acho que ele tá dizendo Ela é caga regra e ela lambendo o copo de whiskey, o sal da beirada e daí não dá pra ser serial genius: maldito Lacan.

Bad trip
Ela é uma caga regra, o primeiro pro segundo. Ela caga regra no trabalho, do amor, do horóscopo, caga regra menstrual. E o segundo: ela, ela, ela no rabo da Mirella. E a Cibelle? O segundo: a Cibelle... e tornaram a sair do bar daí um passou o braço em cima da nunca do outro e eles saíram novamente do bar tropeçando num meio fio. Então o primeiro largou a nuca do segundo, então se colocaram para caminhar mais uma vez a rua depois do expediente na garagem do ônibus e já era domingo. O primeiro tem um cabelo e o segundo tem menos cabelo que o primeiro, aí o primeiro pegou o celular e colocou uma música no aparelho de telefone celular daqueles novos que cantam as músicas alta aí ele pensa: posso ligar meu aparelho telefone celular? E o segundo pensa: vamos entrar no ônibus e vamos ouvir o som do aparelho telefônico celular desbloqueado que eu baixei aquela. E eles ouvem, mas, porque eles não estão ainda no ônibus, vão descendo a rua que dá nos Correios.
Bebida e beberam.
O chão preto vazio, os cobradores de azul pretos vazios, o cheiro de álcool branco e vazio os pilotos dos carros estacionados vazios. Tarde e uma lata no chão e um primeiro chuta a lata no chão então eles passam a primeira esquina e o som no aparelho telefônico celular então eles não se preocupam porque essa hora é tranquilo daí passa o mendigo preto vazio e outra lata que é de cola. Um deles fala pro segundo da mãe e o segundo diz que ri, e o segundo diz: preciso levar também a minha mãe pra fazer ultrasom mas o plano não cobre nem um ultrassom e talvez ela precise fazer uma cirurgia e talvez ela possa até morrer se não fizer a cirurgia e o SUS é foda... Deus não ia permitir. Talvez ele tenha de ir amanhã lá na academia porque tem uma menina lá gostosa pra caralho na academia e ele acha que pega a menina lá e o primeiro diz que tá pegando a novinha de quinze, que agora ela ficou grávida por causa de um registro dágua. O segundo fala que ri, e o segundo ri e fala do cachorro latindo longe e passa uma garota linda na rua.

E passa uma garota linda na rua.
A garota preta linda passa pela travessa ou entra na travessa e está usando uma roupa cáqui-telemarketing e a garota tem uns olhos que são doces poesias porque ela tem um namorado e ela é neopentencostal e ela dá pro namorado às vezes porque o pastor é homem e se for seguir tudo dos homens, tudo da bíblia, tudo aquilo que foi escrito hà 200 anos na bíblia sagrada... A garota na travessa indo pro serviço que ela faz: telemarketing filantrópico, ela ajudando as crianças a lavarem dinheiro, a garota linda, linda. Ela se passa na rua com uns olhos cheios de muita poesia de supletivo e uma boca doce, e uma boca de guaraná natural. Passa pela travessa e o segundo diz que ri, o segundo diz gostosa, diz princesa pra garota, belíssima, pernas belíssimas que cruza as mãos na travessa, que tem o trabalho, um namorado e não liga pro gostosa. E o primeiro chega perto dela. Diz: (que...) bolsa linda. Aí ela anda mais pra frente mas o segundo pega ela e o primeiro pega ela pelo cotovelo porque então ela diz: me larga. Porque então ele não larga e eles arrastam ela pra mais longe, pra mais perto do vazio da travessa e metem gostoso numa xoxota que tá gritando.



Ela deu uma lambida no sal do copo da beira do whiskey, e saiu de casa de noite, e escreve antes: Cibelle, o amor só pode existir quando incontornado.


Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Urânio enriquecido

Quando os campos de concentração começaram a aparecer, a coisa das mortes e das pessoas se enfiando ou morrendo afogadas nos dejetos, ou morrendo afogadas no gás e nos fornos com cabelos esvoaçantes no alto dos prédios e pelas cidades, a coisa das mortes e das pessoas não existia. Quando os campos de concentração começaram, eram os internatos e eram os oposicionistas e eram os alienados. Eram os alienados em geral. E os estudiosos: os estudiosos matemáticos que foram mandados para os campos de concentração com os físicos e os biólogos e lhes disseram para fazer a bomba atômica e não podiam sair dali enquanto não fizessem a bomba atômica, que ainda não se imaginava que fosse ser uma bomba, ou atômica à época.

E os estudiosos jogavam seu futebol e o silêncio e faziam seus cálculos.

Quando os campos de concentração apareceram, eu queria me pôr neles e só podem sair depois que fizerem a bomba atômica, mas eu não imaginava ainda que poderia ser uma bomba e nem afônica. O recolhimento, o advir que pode ser cruel com os outros. As cidades e a coisa da morte afogando nos dejetos meus e dos outros, meus companheiros. Aqui todos se igualam, como na placa do cemitério em 1984 quando enterraram as pessoas inebriadas pelo gás, inebriadas pelo incêndio e me aproximei delas por interesse financeiro. Eu queria me pôr no silêncio, na reclusão, e submetida, e ouvir as vozes múltiplas que Hildegard von Bingen, na Renânia, ouvia. Só essas vozes e só saem daí quando tiverem a bomba atômica.

1942, malditos soviéticos.

Quando os americanos, ingleses de zíper, formularem a fórmula do enriquecimento do urânio, algumas pessoas irão gritar e ter os cabelos esvoaçantes arrancados com uma rapidez impressionante, pelo gás, pelo fogo, pelos estudos e pela branca colombiana. E eu estando presa e eu lá estudando e ouvindo as vozes que Hildegard von Bingen ouvia em meio a todo vinho, todas as plantas, todos os escritos e as vozes que me diriam pra fazer logo a bomba atômica e escrever e destruir meia dúzia de amores de vidas que me querem bem.

(esses povos fronteiriços pensam que devo apenas transitar por eles e há você, meu amor, você que comigo formou um dadosnós; você que agora vai comigo quando páro de ser minha pra dar pra todo mundo, pra todas as gentes no meio do gás, do petróleo, da religião, dos Porcas de Murça e da merda. derretidinha, maníaca, exótica. e a minha mãe)

Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira


O palavrão é o alicerce de sua produção literária, e é o que a define, justifica e celebra. André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente. Se hoje fossem abolidas as palavras “porra” e “caralho” o moço teria que vender laranja na praça.
(Garsachen, em 2007)

Espera. É que lembrei que larguei a análise... larguei lá a análise, que merda, vou procurar quem?

(Fazendo um favor: me dão luz vertical). A coisa toda que preciso é da papinha do Nelson, da cirrose do Nelson que nunca colocou um gole de cachaça mineira na boca. Talvez dois, três, mas coisas de molhar a língua, aliás, coisa que eu muito duvido porque todo mundo se lembra bem como se fosse ontem do Mário Rodrigues entrando na casa de Copacabana e caindo escorando num amigo d'A Crítica. Penso: devo falar com o Nelson? Devo falar com o Ruy Castro? Minha fé já foi mais alta, já fui professora de catecismo por quatro anos, juro por Deus e isso vocês não acreditam. Precisava da papinha da úlcera do Nelson, o Nelson com aquela vida santa e eu achando que ele era o John Wayne das cintas ligas nacionais. Minha mãe me proibia, mas eu lia o Harold Robbins e todas aquelas traduções aqueles "Era uma pequena sensacional" mas nunca saía da página dezesseis. Nelson Rodrigues nunca escrevera um tradução do Harold Robbins, não importa, tava o nome dele lá e eu queria ler, embora não passando jamás (rrramás) da linha 16. Tanto faz, eu queria conversar com o Nelson, convidá-lo pruma papinha anti-úlcera e daí falaríamos (finalmente) do André Sant'anna porque eu queria lamber o André Sant'anna sem saber direito porque. Depois eu queria lamber o Paulo César Pereio e que ele me chamasse de putinha ao pé do ouvido. A porra toda é que me lembrei que larguei a análise.
(nove pontos no queixo)
Nada mais daquelas viagens longas e belas escolhendo se vou pela Orla ou se vou pela Lagoa, nada mais de ouvindo Diana Krall no túnel, nem da cerveja em frente à Novo Rio com o cara achando queu queria água pelo julgamento da roupa Zona-Sul. Nada (N-A-D-A) mesmo, e isso é sério, de Shopping Leblon cruzando com o Daniel Filho na esquina da livraria, nesses meus deslumbramentos. Não vejo problema nisso. Tem aquele filme do cara que queria conviver com as elites e fingiu-se de atropelado. Eu queria as elites, eu queria ter as coisas das elites, eu queria beber a cerveja Therezópolis das elites. Seis reais.

Tudo isso eu queria falar com o Nelson, meu em missivas, que inda vejo lá naquelas imaginações de pernas juvenis, com saias de normalistas torneadíssimas, se abrindo em cima lá da mesa do chefe velho que agora é o pai. Nelson me ouviria como Pablo Picasso ouviria Coco se ela tivesse uma miséria de Piaf. Não importa. Nelson, a papinha, a minha cirrose futura e a úlcera como numa saída correta que não acontecia nas sessões com o analista que eu, puta que pariu, larguei sem lamentar e já super pensando nos sapatos lindos que eu ia comprar pra ficar igual a elite, nos cafés, nas elites, nos livros, nas fotografias e no Pereio. Era isso que eu ia falar pro Nelson que meu amor era como um amor que Elza lhe tinha, mesma Elza que disse se você não sair desse apartamento agora eu jogo os nossos filhos pela janela, e você saiu, e o suspensório, e as dentaduras do Nelson... meu deus. Nelson, olha, é que é igual. Você vai morrer e vai ver que é igual, vai ser igual daqui há 40 anos, dois divórcios e duas voltas e toda aquela coisa da divisão da biblioteca, do esse livro é meu, e toda a mágoa que ele vai sentir, e todas aquelas mulheres que ele vai comer e eu vou comprender, Nelson, entende? Igual a Elza e você.

O Nick Drake tinha aquela namorada favorita mas nunca encostou um dedo nela, morreu e tal e nunca nem beijou a mulher de língua; Nelson eu larguei o analista então me ouve, cara: a coisa da literatura não importa, você sabe. Nelson, é que eu sou muito a Elza e eu queira casar mesmo à revelia da mamãe, mesmo ela odiando o Rafael, eu casaria. Embora ela me odiando porque a vida é assim, a gente odeia tomar a papinha anti úlcera, a gente odeia tomar a insulina regular toda vez que vai comer um pão francês com Qualy, a gente odeia a filha dando e gozando gostoso.
Nelson, você é meu pai, me escuta. Eu nunca fui Glorinha, era mentira, eu estava brincando (luz vertical em mim, por favor) eu sou a Noêmia e me entrego num bom dia. Vê, ela lá com o Sabino e ele dizendo prela não fazer barulho e daí a Noêmia não fazia barulho. Isso foi em outra vida, agora é sério: outra vida e eu quero que se foda a literatura porque eu venderia salgadinhos pra aniversário se ele estivesse ali comigo cheirando o meu cabelo com cheiro de gordura e tendo um problema de vesícula por causa do wisky barato que a gente ia ter dinheiro pra comprar e a úlcera porque as pessoas ficam paradas no meio do caminho e ele quer passar, e ele quase o Alvy Singer... lindo! Larguei do analista e aí eu sinto aquele alívio que todo mundo sentiu quando começou a chuva do dilúvio mas sabia ainda era a chuva do dilúvio. Ê chuvinha boa.

Nelson, agora cê é meu pai, como vai ser? Porque te quero por pai sempre sóbrio, sempre sentado no balde e aquele barulho de cigarro, aquele gostoso de Continental que a Tina fumava e que meu pai, que veio antes de você, fumava e eu odiava, mas a Tina fumava e daí eu mandei o Continental pro céu, embora sem largar a cerveja nem a cirrose futura, nem a úlcera causada por honestidade, lerdeza e salgadinhos fritos pra festa, vê isso...
Eu amando o Rafael. Eu me preocupando com a literatura. Eu amando a preocupação com a literatura. Eu ali toda amando a literatura e falando um monte de merda pro Rafael. Vou vender salgadinhos e vão me dar calote, e a gente vai ficar pobre à beça, e o Rafael vai vender os livros mas a gente vai ficar feliz ainda com uns quatro filhos crioulinhos e eu com cinco centímetros de raiz pra fazer e aquele wisky que foi o que deu pra comprar, e a gente lendo o Paul Vegan falando sacanagem e a gente lendo e fazendo as sacanagens do Paul Vegan, e ele me chamando de putinha e eu ali realizada sem pensar no Pereio. Se bem que ia ser demais o Pereio...
Mais demais que os textos longos e os adolescentes preocupados com a LHC dizendo que os meus textos são longos porque as partículas vão acelerar e elis ixtao apavorados e deuz naum vai deicha iso acontesseeeerr, disse o Gentileza.

Pereio ali querendo me chamar de putinha e a minha vulva depilada e a gente discutindo o conceito de conto e eu querendo você comendo a minha vulva depilada, me chamando de putinha e eu parando de pensar no Pereio, no Dahmer, no André e pensando no Rafael Santana fazendo amor na minha vulva depilada em meia hora de depilação com aquela esteira massageadora em baixo e a depiladora falando da novela e eu querendo que se foda a novela que eu queria ter dinheiro pra pagar a TV à cabo, pra ver o Pereio entrevistando os domingos. Tanto faz. Eu amando o Rafael, eu querendo o Rafael mas a crítica dos conteúdos e todo aquele Poe, e todo aquele Umberto Eco na porra do meu ouvido e eu, meu amor, querendo agora conversar com o Nelson prele me explicar porque sou uma zebra, porque os golfinhos se comunicam e eu não me comunico e porque é que infernos que eu te amo tanto que queria ser atropelada pra ter esse desfecho deu falando ao telefone que te amo pagando 16 centavos o minuto. Pra eternizar o momento tipo a Noêmia sendo esfaqueada e admirada e eternizada nos jornais, linda... Dona Noêmia se entregando num bom dia e nunca conhecendo a Glorinha. Eternizando minha declaração de amor mão-única, meu senso de queda, meus Umbertos Eco não lidos, meu Cortázares, meus Dostoevskys meus Márquez advindos de resenhas. Pra eternizar a rodoviária e a tua família no painel das fotos e eu pedindo um beijo e você na cozinha mordendo os meus mamilos eternizados.

N R, a literatura e o culto aos sentidos me cobrando essas coisas que não são você... Meu Nelson Rodrigues, eu quase saindo de pijama pra comprar cerveja pra ter cirrose hepática pra partilhar um câncer de laringe do Dahmer junto às porcelanas de elite dele e as conchinhas da praia de Icaraí e toda aquela coisa das papinhas e do meu pai escondendo oito litros de pura cachaça mineira em baixo do tanque. Essas coisas, e as putinhas. As calcinhas enfiadas na bunda e as meninas no banheiro da academia e o Pereio xingando todo mundo e eu lendo a porra das teorias literárias da Gotlib, do Umberto Eco e nada lá me trás a pessoa amada em 3 dias além da grana em continuar escrevendo textos curtos com figuras que os adolescentes, com medo do apocalipse pela LHC, vão ler e vão ver e vão fazer um vídeo e vão usar kajal stick e vão ouvir a Kate Perry eternizando numa efemeridade e eu vou ficar em casa procurando os livros do Robbins e vou telefonar pro Rafael desejando o Rafael, amando o Rafael, a voz muda do Rafael mas ele ficou com aquela dor misturada com o sono e ele foi dormir como eu não gosto porque sinto falta dele quando ele dorme e eu fico acordada tomando wisky caro, como já sinto falta, como deito e espero ele voltar do trabalho com uma úlcera peptídica linda, me amando...